PARTICIPE DA ENCHENTE! por Aline Pereira

Artigo Publicado no Jornal ANotícia em 16/03/2011

 

Participei da enchente do dia 10 de março. Desta vez, não como espectadora, mas como pedestre de pés descalços do Centro de Joinville. Pena, já era dia 10! Um dia antes, nossas autoridades teriam molhado seus sapatinhos de couro em pleno desfile de comemoração dos 160 anos da cidade. Digo que foi curioso sentir, literalmente na pele, os motivos das reclamações que já ouvira por alto nos ônibus e esquinas.

Pude constatar situações que atingem do consumidor ao lojista, do mendigo ao burguês; observar, por exemplo, os sacos de lixo obedecendo à correnteza das águas da 9 de Março, que, certamente, chegariam às águas do Cachoeira; o desespero da criança agarrada com seus tentáculos ao colo da mãe; o proprietário da lanchonete e seus funcionários com água nas canelas, sentindo choques nas pernas enquanto geladeira e freezer não eram desligados; os motoristas de ônibus, preocupados com sua máquina, acelerando o ônibus no meio d’água e acabando por formar ondas de tamanho suficiente para atingir os pedestres que buscavam manter-se secos sobre canteiros e elevações.

Das 19 às 22 horas, esperei a água baixar para poder enxergar bueiros e declives sem correr o risco de focinhar naquela água barrenta. Estava sem comer, sem poder descansar do trabalho, contudo, foi apenas um pequeno número de horas de um dia qualquer, experiência que me oportuniza a corrente narrativa.

E quanto aos lojistas, funcionários do comércio e todos aqueles que precisam passar pelo miolo do Centro da cidade todos os dias? Foram dez cheias desde o início de 2011!

Seria oportuno que representantes do governo local e sábios em geral ficassem ali em pleno momento fatídico, encarando de perto e se expondo como um bom repórter se expõe para não perder os detalhes inimagináveis, e isso poderia incluir: o cheiro de excrementos, o choro contido da criança, o desespero dos lojistas, a correnteza das águas da 9 de Março. Quem sabe, assim, pessoas ocupadas da coletividade pudessem se inspirar ali – no meio d’água podre – naquilo que mais se espera: boas ideias para amenizar o caos.

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Professora de Língua Portuguesa e Literatura da rede pública estadual nas séries de Ensino Fundamental e Médio. Amante de música. Libertária. aline.correio@gmail.com

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